Por Clara Caldeira

Há exatos 106 anos,  nesse mesmo dia, 4 de agosto, nascia em  São Paulo Roberto Burle Marx (1909-1994), o artista que iria  repensar e reinventar  a arquitetura, o  jardim, a cidade e a paisagem no Brasil.

Apesar de ter se interessado pelas plantas e seu cultivo desde menino, sua formação se deu na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, cidade onde viveu a maior parte de sua vida.

Reprodução

Burle Marx entre Le Corbusier e Lúcio Costa

Burle Marx começou a projetar jardins estimulado pelo arquiteto Lucio Costa, seu vizinho de bairro, que o introduziu ao grupo dos arquitetos modernos: Oscar Niemeyer, irmãos Roberto, Atilio Correa Lima, entre outros. Com eles, iniciaria uma profícua parceria como paisagista e artista plástico, corroborando assim com a tese da Síntese das Artes.

Burle Marx sempre trabalhou composições de cores, texturas  e volumes definidos por massas de vegetação, enquanto recuperava, preservava e valorizava a flora brasileira.

O arquiteto, artista e paisagista também  pesquisou e  introduziu espécies originárias de outros trópicos, aclimatadas no seu sitio na Barra de Guaratiba, Rio de Janeiro, onde morou e trabalhou até o final da vida (hoje Sitio Roberto Burle Marx  / IPHAN, museu que preserva a obra do artista e paisagista).

Em 1934 Burle Marx assumiu a direção de Parques e Jardins do Departamento de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco, e elaborou seu primeiro projeto para um jardim público, a Praça de Casa Forte, em Recife, onde criou, três anos depois, o Parque Ecológico do Recife.

Ainda em Pernambuco, conviveu com a vanguarda artística do movimento regionalista, como o escritor Gilberto Freyre, o arquiteto Luis Nunes e o artista plástico Cicero Dias.

Florianópolis pela metade

Para um apreciador convicto da estética e da natureza, Florianópolis só poderia mesmo ser um prato cheio. Em sua passagem pela Ilha de Santa Catarina, no início da década de 1970, Burle Marx ajudou a criar alguns projetos como o dos jardins da Praça da Cidadania, na UFSC, e o do aterro da Baía Sul, em parceria com o paisagista José Tabacow.

Os projetos propunham a criação de áreas públicas de convivência e troca, priorizando o contato com a natureza e a apropriação do espaço urbano pela população. Infelizmente, nenhuma das duas propostas foi executada integralmente pelas autoridades e ambas acabaram descaracterizadas com o passar do tempo.

Secult/ Divulgação

Praça da Cidadania, UFSC

No entanto, alguns movimentos no sentido da recuperação desses trabalhos foram propostos no últimos anos. Em 2009, estudantes e professores da UFSC se mobilizaram para tentar pedir o tombamento do jardim da universidade, movimento que acabou recuando por conta do impacto que a restauração do projeto original teria no campus, como por exemplo a necessidade de remoção ou adaptação da concha acústica.

O projeto do Parque Metropolitano Francisco Dias Velho, no aterro da Baía Sul, também poderia ter deixado a marca da arte de Burle Marx em Florianópolis, a exemplo do ocorreu no Rio de janeiro com o parque do Aterro do Flamengo, mas não foi bem isso que aconteceu.

A proposta incluía a construção de um espaço público de lazer e convívio, contando com equipamentos urbanos distribuídos em ampla área de jardins. Mas mais uma vez o projeto não foi executado como previsto e acabou sendo posto de lado.

Passarela Jardim

Em 2013, a Prefeitura de Florianópolis e o Ipuf manifestaram interesse em recuperar o projeto de Burle Marx para o aterro. Estudos feitos na época sugeriram a revitalização da área e a elaboração de um projeto para retomar alguns princípios da proposta do paisagista.

De acordo com o Ipuf, o desejo de recuperar o projeto como um todo permanece, mas por hora, o que está para ser implementado é a Passarela Jardim. A estrutura suspensa sobre o trânsito de veículos a uma altura de seis metros, permitirá que os usuários apreciem a vista do mar e dos prédios históricos.

Além das áreas verdes, embaixo da passarela serão instalados equipamentos de lazer como quadras, pista de skate, restaurantes e lanchonetes. Desenvolvido por uma comissão formada pelo arquiteto César Floriano e pelo paisagista José Tabacow, o projeto aguarda agora a liberação de verba para ser posto em prática.

 

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