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Há muitas formas de se fazer carnaval. Talvez, a mais genuína delas seja a ideia de sair por aí, com ou sem fantasia, os braços abertos, cantando e gingando – botar o bloco na rua, como Sérgio Sampaio eternizou em sua célebre canção.

Então, O Barato de Floripa foi atrás de quem bota, ou já botou, o bloco nas ruas da cidade, fazendo delas espaços de brincar, dançar e tudo o mais que se quiser.

 
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Já ouviu falar de um tal de Zé Pereira, batendo o tambor pelas travessas do Ribeirão da Ilha? O Zé Pereira é, na verdade, uma festa que acontece em vários lugares do Brasil. Sua origem é incerta, mas reza a lenda que foi um comerciante português – chamado Zé Pereira – quem fez o bloco pela primeira vez, em meados do século 19, no Rio de Janeiro.

Em Florianópolis, o cortejo é quase centenário – a data do primeiro desfile por aqui também é incerta – e fez tradição própria no Ribeirão da Ilha como festa de pré-carnaval puxada pela Banda Nossa Senhora da Lapa.

“No passado, o Zé Pereira saia um mês antes do Carnaval, todo sábado e domingo, tocando na rua, somente para moradores da comunidade”, conta Zito Nerto Fraga, folião da festa e fundador do Bloco da Rua de Cima, que foi criado em 2006 e esquenta a festa no Salão Paroquial da Igreja Nossa Senhora da Lapa antes da saída do Zé Pereira – que, hoje, acontece sempre na tarde do último domingo antes do Carnaval.

Hoje, a festa mudou bastante. “Não tem mais condição, a população é outra, cresceu muito”, lamenta Zito. Para ele, mesmo com o reforço na segurança nas últimas duas edições – “Foi nota dez!”, ressalta – a dimensão que a festa tomou (em 2016 foram cerca de 30 mil pessoas) é um problema para a comunidade.

“Se tiver que fazer um deslocamento do Ribeirão pro Centro da cidade, por onde vai passar? Só temos uma estrada aqui...”, questiona, preocupado com a possibilidade de graves contratempos.

Na opinião do morador do bairro, o estilo da festa deveria mudar: “Poderia se fazer como no tempo passado. Dava pequenas voltas aqui na comunidade e logo parava”, sugere. “Mas o importante é não acabar”.

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Dom Rafael foi um famoso personagem da telenovela O direito de nascer, inspirada em uma radionovela cubana. A primeira versão brasileira da obra foi exibida pela TV Tupi na década de 1960 e tinha entre seus fãs Manoel Rafael Inácio, o Seo Deca, conhecido pescador do Campeche.

“Ele achava que era o Dom Rafael, ele se sentia assim”, contam as netas Silvia Helena Inácio e Jaqueline Helena Inácio. E assim o personagem virou nome de um dos blocos mais antigos do bairro, fundado em 1975.

Depois da morte de Deca, em 1993, o bloco mudou o nome para Deca Rafael, em homenagem seu fundador, que espalhou o gosto pela música entre os membros da numerosa família – a matriarca teve 15 filhos, que por sua vez tiveram seis, oito, nove, 12 e até 14 filhos cada.

Hoje dirigido pelas netas do pescador, o bloco passou antes pelos filhos de Deca, que fizeram história também com a Banda Campeche, tocando nas festas de carnaval do centro, Rio Tavares e Barra da Lagoa.

Entre eles, o pai de Jaqueline e Silvia, Antônio Manoel Inácio, falecido em julho de 2015. Presidente do bloco por vários anos e sempre na diretoria, Antônio se ocupava de manter viva a tradição. “Por ele, o bloco não poderia acabar”, contam as filhas.

De luto pela perda de Antônio, neste ano o Deca Rafael não desfila, mas Silvia e Jaqueline asseguram que voltam em 2017.

“Carnaval para nós é sinônimo de nosso pai, Antônio”, concordam as irmãs. “E ele era um cara que gostava de música, gostava que a gente fosse alegre, andava com a gente pra tudo quanto é lado”, lembra Silvia.

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Tradicional encontro de samba aos domingos no Sambaqui, o único final de semana em que o Rancho do Neco não abre é no Carnaval, por causa da movimentação nas ruas do bairro.

Aproveitando a brecha e um barco de pesca de camarão que dava sopa no rancho, Orlando Carlos da Silveira, o Neco, fundou junto com amigos em 2004 o bloco Marcha Rancho .

Transformado em um pequeno trio elétrico, o barco desfilou em Santo Antônio e também no centro da cidade por alguns anos.

“Fomos muito elogiados pela originalidade. No centro, nunca havia existido uma proposta desse tipo”, conta Neco fazendo questão de lembrar também a inspiração da ideia: “mas, lá na Barra da Lagoa, já existia o bloco do Neném, que sempre foi num barco”.

Apesar do sucesso, as dificuldades para lidar com a alegoria e a falta de patrocínio – que chegou a ser pedido a Prefeitura, sem sucesso na época – motivaram o encerramento do bloco alguns anos depois, em 2007.

“Não tínhamos um galpão, um lugar onde deixar o carro e toda a aparelhagem”, conta Neco, lembrando que chegaram a desfilar todos os dias de Carnaval no Centro e, neste momento, a segurança se tornou uma preocupação.

Além do barco, as músicas também foram novidade. Diferente da maioria, o bloco não tocava samba, mas marchinhas e marcha rancho, gênero típico dos ranchos de pesca do litoral brasileiro. “A marchinha é mais festiva, é mais simples de dançar, as pessoas aderem com mais facilidade”, explica Neco.

“É o que está faltando no Carnaval de Florianópolis hoje”, avalia. O sambista torce para que o gênero volte a conseguir um espaço na programação e não descarta a hipótese de ele mesmo voltar a botar o bloco – e, quem sabe, o barco – na rua: “a ideia não está morta, ela continua”.

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Se você também quiser botar seu bloco na rua, é bom começar os trabalhos desde cedo para garantir a autorização. Confira abaixo o passo a passo da burocracia:

- Todos os eventos devem ter autorização da Delegacia de Jogos e Diversões da Polícia Civil, Secretaria Executiva de Serviços Públicos (SESP) e da Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram).

- Caso pretenda fechar alguma rua para fazer o trajeto, é preciso pedir também a autorização da Diretoria de Operações de Trânsito. Para usar palco ou estruturas semelhantes, o aval é do Corpo de Bombeiros.

- A recomendação da Setur é para que os organizadores procurem as entidades de 20 a 60 dias de antecedência. Mas, como cada autorização corre com um prazo individual (e são muitos os pedidos nesta época do ano!), é bom se antecipar o máximo possível.

- Além da autorização, cada bloco pode pedir auxílio financeiro à Prefeitura. Para solicitar, é preciso ficar atento ao prazo no site da Setur. A concessão dos recursos é regulamentada pelo Decreto nº 13.192, de 16 de junho de 2014.