Por Mariana Rosa

Quando o assunto é nostalgia em Florianópolis, pode-se dizer que qualquer roda de conversa deve ter em comum um destino certo: o Miramar. O antigo cais e depois famoso bar, no centro da cidade, logo abaixo da Praça 15 de Novembro, foi demolido há mais de quarenta anos e segue até hoje como uma ferida aberta. O mar deu espaço ao aterro da baía sul e o Miramar, a um largo na praça Fernando Machado, onde foi erguido em 2001 um memorial – considerado pelos mais críticos “um esqueleto sem memória”.

O local passou por diversas épocas, ocupando diferentes papéis no imaginário da cidade – de destino do passeio de domingo, no fim da década de 20, a reduto da boemia e zona de prostituição, na década de 1970. A construção do eixo viário no local após o aterro foi a justificativa apresentada para a demolição, mas não foi bem isso que aconteceu. Volta e meia, a ocupação da região volta a gerar discussão, seja em relação ao aterro – onde a Prefeitura, após a devolução da área pela União, pretende instalar um estacionamento – ou ao próprio Miramar. A atual gestão chegou a anunciar no início do mandato um concurso para a reconstrução da estrutura no local. O projeto, que previa uma lâmina d’água simulando a hoje aterrada presença do mar, não foi executado (a assessoria de comunicação da Prefeitura não respondeu aos contatos da reportagem a respeito da situação da proposta).

Vista aérea da Baía sul e do Miramar em 1968. Foto: Banco de Imagens Casa da Memória

Vista aérea do Miramar em 1968. Foto: Banco de Imagens Casa da Memória/Reprodução

Modernidade prometida

Inaugurada em 1928 com o objetivo de melhorar as travessias de barco entre a Ilha e o continente, a construção foi planejada para abrigar junto à estrutura de embarque um elegante café de estilo Art Decô, local onde depois foi instalado o bar.

“Dentro do contexto da cidade colonial, o Miramar ocupava um espaço simbólico, de chegada, a porta de entrada. Ainda mais se tratando de uma ilha. Um aspecto muito agradável. Esse espaço de chegada, pelo uso, vai se configurando lugar de permanência, de espera e encontro. Por esta dupla função, acaba ocupando um lugar simbólico”, avalia César Floriano, professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC.

Apesar de todo esse simbolismo, reforçado ao longo das décadas na medida em que o espaço se tornou, após a desativação do porto, um ponto de encontro da boemia da cidade,  em 24 de outubro de 1974 o Miramar foi demolido. Um ato sem aviso e recebido em silêncio, como destaca editorial do jornalista Adolfo Zigelli no programa Vanguarda, veiculado pela rádio Diário da Manhã no dia seguinte. Ouça o áudio abaixo:

 

Demolição do Miramar em 24/10/1974. Foto: Banco de Imagens Casa da Memória/Reprodução

Demolição do Miramar em 24/10/1974. Foto: Banco de Imagens Casa da Memória/Reprodução

 

Para César Floriano, o episódio representa o fim de uma cidade colonial. “O mais triste é que provocou a morte para abrir espaço para uma modernidade que não veio”. Isso aconteceria, na avaliação do professor, se houvesse sido executado o projeto proposto pelo urbanista Burle Marx na época:  “Não que o projeto fosse recuperar a cidade como era, mas pelo menos trazer um pouco da promessa”.

“Qualquer tentativa de recuperar [a construção original do Miramar] é equivocada. O que temos que fazer é uma travessia nova, recuperar a relação da cidade e sua entrada”, defende Floriano, que é autor do projeto “Passarela Jardim”, proposta de recuperação do projeto de Burle Marx que prevê a revitalização da região, além da instalação de uma marina pública e um terminal marítimo.

“Já era mal visto por quem circulava ali”

E por que terminou ao chão um dos principais patrimônios históricos da cidade? Oficialmente, falou-se em problemas estruturais. Falou-se também, e principalmente, na passagem do eixo viário no local, o que não aconteceu.

Para o bibliotecário Alzemi Machado, o que incomodava no Miramar provavelmente não era tanto a questão da infraestrutura, mas os seus frequentadores. “Já era mal visto por quem circulava ali”, afirma.  De fato, isso chegou a ser colocado pelo governo do estado na época, que foi o responsável pela medida. “Era frequentado por pessoas sem muito conceito”, disse o governador Colombo Salles em entrevista concedida ao jornalista Carlos Damião em 2005, recuperada na coluna 24 de outubro de 2015 no jornal Notícias do Dia.

Nas suas pesquisas ao acervo do período anterior à demolição, em 1974, Alzemi se recorda de uma reportagem que se referia ao Miramar como “uma chaga no centro da cidade”, por, entre outras coisas, ser uma região de prostituição, e cobrava do poder público providências em relação ao local.

Nota-Gazeta-25-10-1974

Acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina

Uma nota intitulada “Miramar, outubro de 74, agora é cinza” publicada no jornal Gazeta do Povo no dia seguinte à demolição afirma que “na década de 20, estar na moda era frequentar o Miramar” e relembra em detalhes os costumes da época para na sequência concluir: “desde ontem e depois de uma irremediável decadência que se acentuou a partir de 1930, o Miramar é apenas um sonho sepultado pelo progresso”.

A chamada decadência talvez não significasse o mesmo para todos. Nas suas últimas décadas, o Miramar foi frequentado por muitos e foi um reduto da boemia e da cena cultural da cidade.

E, numa época de repressão política, a arte foi a voz que restou para manifestar a saudade do Miramar e protestar contra a sua morte, como acontece em composições do músico Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, autor do hino da cidade Rancho de Amor à Ilha e também nos versos de Sebastião Ramos, autor do livro de poemas No tempo do Miramar (Papa-livro, 1999).

 

 

 

 

“Velho trapiche, mão aberta para o mar

Baía Sul, paisagem

Dedo indicador da mão,

mão acolhedora.

Ponte de atrações.

Beijo de terra e mar.

[…]

Miramar, menina bonita

com os pés dentro dágua,

cabelos salgados,

cheirando a maresia.

Miramar dentro do Desterro

e fora do aterro.

[…]

Mas o vilão matou a menina bonita,

o último descalço, o velho-moço,

matou o beijo de amor

[…]

Morreu a memória, morreu o meu sonho,

entre tantos outros sonhos.

A saudade, só a saudade ninguém mata,

a saudade do velho trapiche,

do meu doce, inesquecível Miramar”.

Trecho do poema Miramar, de Sebastião Ramos.

“Não havia necessidade de demolir”

Autora do livro Florianópolis: memória urbana e professora de arquitetura e urbanismo na Unisul, Eliane Veiga ressalta que não havia necessidade de demolir o Miramar para a execução do projeto do eixo viário.

Ela explica que o contexto da medida era marcado por uma perspectiva “funcionalista e fria” do poder público em relação ao desenvolvimento urbano, com um planejamento voltado aos automóveis. E faz um alerta: “O descaso pela paisagem urbana e de valor cultural só será verdadeiramente enfrentado, quando for entendido por todos que o utilizam, que este espaço é de todos, ao invés de espaço de ninguém”. Confira a entrevista completa:

OBF – Por que o Miramar passa de um espaço tão importante da cidade a um patrimônio que pode ser demolido? Como acontece essa transição?

Eliane Veiga – Com a desativação do porto de Florianópolis, a construção de pontes e o incentivo ao transporte rodoviário, o Miramar entrou em declínio. Isto aconteceu numa época em que poucos cidadãos se manifestavam para defender o patrimônio cultural da cidade. E estas pessoas defenderam a permanência do Miramar, na ocasião! Entretanto, os anos de 1970, se caracterizavam pela maneira funcionalista e fria como a administração pública estadual entendia o processo de desenvolvimento urbano; e o planejamento da capital baseava-se no sistema rodoviário, que investia essencialmente na mobilidade com automóveis, o que acabou por incentivar os veículos individualizados. O aterro foi consequência deste pensamento, como ocorreu em outras cidades pelo Brasil, onde se fez imensos aterros e mesmo o desmonte de morros inteiros, a fim de criar alças viárias, que temporariamente solucionaram a fluidez do trânsito de automóveis. Décadas depois, já se percebeu claramente este conflito enorme que o excesso de automóveis gera nas cidades e também os prejuízos com a perda da relação da orla com o espaço interior da cidade.

Não havia necessidade de demolir o antigo Miramar e houve protestos à época, que foram em vão. Há jornais impressos que documentam o fato e locuções de rádio que falaram sobre isto; “Aqui jaz o Miramar”, é o título de uma destas matérias dos anos 70.

OBF – O aterramento da região e a demolição do espaço, que foi durante algum tempo ponto de encontro da boemia local, afetou a vida cultural do centro da cidade?

Eliane Veiga – Afetou e muito. E não havia necessidade de demolir. Recomendo assistir ao documentário em vídeo “Miramar um olhar para o mundo” dirigido por Marco Martins e Ricardo Weschenfelder, um projeto premiado no edital de cinema e vídeo da Cinemateca Catarinense, no final do século XX. Ele registra a opinião das pessoas sobre isto e resume várias posições. A resenha diz o seguinte: “Durante quase meio século o bar Miramar foi cenário de histórias, palco de muitos carnavais, arena de teatro e principalmente, testemunha de mudanças que ocorriam no mundo e que se refletiam de maneira peculiar na Ilha de Santa Catarina.

Notícias de guerras, presidentes que caíam ou tomavam posse, os acontecimentos mundo afora que chegavam via rádio e as disputas políticas e esportivas primeiro eram discutidas ali, entre um pastel de camarão e um chope gelado.

Era no Miramar que os pescadores do Ribeirão da Ilha chegavam com suas canoas para vender peixe no centro da cidade, ali as torcidas das agremiações rivais Aldo Luz, Martinelli e Riachuelo se aglomeravam durante as competições de remo.”

Citando um verso do saudoso poeta Zininho no samba Miramar, diz o documentário: “… era ali que nasciam as serenatas…”

OBF – O episódio pode ser considerado simbólico no processo de urbanização da cidade, no sentido de uma desvalorização do patrimônio cultural em favor do progresso?

Eliane Veiga – Sim, a prioridade foi o funcionalismo rodoviário, em detrimento da relação humanizada do cidadão com o espaço natural e construído, já consolidados historicamente e característicos da singularidade da ocupação e do povoamento da Ilha de Santa Catarina.  

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Vista do centro antes do aterro da baía sul, em 1973. Foto: Banco de Imagens Casa da Memória/Reprodução

OBF – Como avalia as propostas da Prefeitura até então para reconstruir a memória do espaço (memorial construído em 2001 durante o governo de Ângela Amin e projeto de reconstrução pela atual gestão)?

Eliane Veiga – O conceito da intervenção que ocorreu em frente à Praça Fernando Machado tinha como característica facilitar o trânsito dos pedestres. Promover um caminho com pavimentação uniforme e sinalizada, relativamente acessível e seguro para os pedestres, notadamente os que circulavam entre os dois terminais que havia na época – o Cidade de Florianópolis e o (hoje desativado) da Francisco Tolentino. Para tentar resgatar parte da memória do antigo Miramar, a Prefeitura Municipal construiu no local uma praça seca, em ladrilho hidráulico nas cores branco, azul, cinza e preto com desenhos em petit pavê marrom e preto, simbolizando a implantação do Miramar, circundado pelo mar. E foi erguido um pórtico no local, como memorial evocativo daquele edifício. Esta intervenção artística na Praça Coronel Fernando Machado provocou a manifestação de opiniões contra e a favor, acentuando, de toda a maneira, a percepção sobre o valor da memória e da preservação de referenciais – construídos e naturais – na paisagem e esta eu considero uma consequência muito positiva.

O memorial pretendia evocar a lembrança da um espaço muito pitoresco e o seu valor simbólico; jamais ser uma reprodução, ou um pastiche; até mesmo porque não faria sentido – ali não há mais a paisagem marítima para mirar e quase toda a atividade náutica se perdera paulatinamente – primeiro com a construção da ponte Hercílio Luz, depois com o encerramento das atividades dos porto da cidade e, por fim, com o distanciamento das garagens náuticas dos três centenários clubes de remo (Aldo Luz, Martinelli e Riachuelo) e o afastamento visual das suas tradicionais competições, que atualmente ocorrem e são prestigiadas ao longo da nova borda náutica da cidade.  

O memorial ao Miramar foi uma intervenção mal compreendida, talvez por falta de arrojo no resultado plástico e pouca defesa dos seus objetivos, trazendo como consequência, uma absorção popular inexpressiva. Penso que primeiro é necessário informar sobre o que se pretende, depois executar, legitimando a obra através da assimilação de cada cidadão.

Fica aqui a reflexão: O descaso pela paisagem urbana e de valor cultural só será verdadeiramente enfrentado, quando for entendido por todos que o utilizam, que este espaço é de todos, ao invés de espaço de ninguém. O desafio para enfrentar o mau trato dos logradouros permanece na atualidade: está em compreender a essência desta questão, tanto por quem projeta o lugar, quanto por quem o administra e os que o utilizam de alguma maneira.

***

Agradecimentos:

Casa da Memória de

Florianópolis

4 Comentários

  1. Renato Turnes

    Excelente matéria, parabéns. Se me permitem, a edificação na foto da demolição não é o Miramar, mas o Hotel Laporta, que ficava ao lado, onde hoje está uma agência da Caixa. Abraços.

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  2. Cawe Coy

    “…a prioridade foi o funcionalismo rodoviário, em detrimento da relação humanizada do cidadão com o espaço natural e construído, já consolidados historicamente e característicos da singularidade da ocupação e do povoamento da Ilha de Santa Catarina.”
    Essa matéria me deu vontade de conhecer mais ainda a história Florianópolis e lutar pra que o Centro Histórico volte a ser um local das pessoas, vivo, acessível, habitado e palco cultural.

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  3. Renato Tapado

    Cheguei a Florianópolis em 29 de dezembro de 1973. Tinha dúvidas se eu tinha visto o Miramar ou não. Meu desejo era tê-lo visto, e o maior mesmo era ter freqüentado um lugar assim, esperando que algum dia, por uma utopia absurda (todas são), ele voltasse a existir. Verifico aqui, nesta matéria, que eu já estava morando na ilha quando o Miramar foi demolido. Com certeza, eu o vi, ao atravessar a ponte. Mas a imagem se perdeu na memória do que eu era, um menino de 11 anos. Mas ela retorna, sempre, cada vez que vejo as fotos da época. Tristeza.

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