Por Clara Caldeira

Ligia Sena, cientista radicada em Florianópolis, criou uma plataforma colaborativa para a produção de conteúdo independente e especializado sobre maternidade e infância

Cientista, escritora e empreendedora social, Ligia Sena viveu, em 2010, o fato que mudaria para sempre sua vida pessoal e profissional. A maternidade foi o grande ponto disruptivo na trajetória desta mulher de fibra, que decidiu abandonar uma carreira de 15 anos na área da farmacologia e neurociência para dedicar-se à saúde coletiva de mulheres-mães e ao projeto ‘Cientista que Virou Mãe’.

Reprodução/ Facebook

Ligia Sena é paulista e vive em Floripa há dez anos

“Eu nunca aceitei o tipo de informação que a mídia tradicional produz focada em mãe, mulher e infância”, explica. Quando a pequena Clara entrou em sua vida, Ligia deparou-se com um universo novo e complexo e, ao perceber que não conseguia encontrar na internet conteúdos que trouxessem conforto e esclarecimento para suas novas questões, decidiu escrever.

Foi nessa época que a cientista-mãe começou o blog que daria origem ao projeto homônimo, que hoje está entre os seis finalistas do Lab Social Good Brasil. Ligia conta que os textos que produzia começaram naturalmente a chegar até as mulheres que buscavam por informações independentes e de qualidade na internet, e assim, aos poucos e organicamente, o blog e sua página no Facebook – que hoje tem mais de 70 mil fãs – foram crescendo e tornando-se referência na área.

Independência, autonomia e credibilidade

Independência é um dos alicerces da nova empreitada da cientista, que reuniu um time de mais de 30 colaboradoras – profissionais e mães de diversas partes do país – para escrever com liberdade total sobre os temas relacionados à maternidade e infância, que julgam relevantes. Ligia faz questão de deixar bem claro que não quer nenhuma empresa financiando seu projeto, mas sim construir um ambiente de troca, livre e colaborativo, onde as mulheres se sintam respeitadas e acolhidas nessa fase tão importante e delicada da vida.

“Fui farmacologista durante muito tempo, acompanhei o desenvolvimento de novas drogas e sei, por experiência própria, que financiamento de empresa influencia conteúdo”. Além da autonomia, outro valor cultivado por Lígia e sua equipe é a qualidade e relevância do conteúdo produzido. “O que roda por aí sobre crianças e mães é bem generalista, cheio de estereótipos”, lamenta. “Uma mãe que está passando por dificuldades quer uma informação que fortaleça ela, não coisas como ‘saiba como recuperar o seu corpo de antes’. Isso até pode ser bacana, mas existem outras preocupações maiores”.

Crowdfunding de conteúdo

Mas como conciliar a recusa a patrocinadores com sustentabilidade financeira? É aí que a coisa fica ainda mais interessante (e inovadora). As colaboradoras do ‘Cientista que Virou Mãe’ – Andrea Dip, da Agência Pública, Ellen Paes, jornalista da Fiocruz, e Andréia Mortensen, neurocientista que dá aula na Drexel University nos Estados Unidos, só para citar alguns nomes – escrevem sobre temas que dominam e consideram relevantes.

Divulgação/ Facebook

As leitoras podem fazer contribuições no valor que desejarem para ter acesso às matérias

Depois de cadastrados os títulos e resumos das matérias na plataforma, entram em cena as leitoras (ou leitores, porque não?), que escolhem os textos que querem ler e dão uma contribuição voluntária para ajudar a manter o site. O investimento pode ser de zero, cinco, dez, cem reais ou qualquer outra quantia. Como num crowdfunding, quando o valor mínimo para aquele texto é atingido, a matéria é publicada na plataforma.

Outra opção para as leitoras é se cadastrar para fazer sugestões de temas. Quando há muitas solicitações sobre um determinado assunto, decide-se internamente se alguma das colaboradoras topa escrever sobre ele. Parece que o projeto encontrou uma fórmula eficiente para a produção sustentável de conteúdo livre e especializado. “Queremos fazer um contraponto”, finaliza Ligia. “No site você vai encontrar informações que não são mercadológicas”.

Ligia e os outros cinco finalistas do Social Good Brasil Lab se apresentarão nos dias 12 e 13 durante Seminário SGB e você pode acompanhar os pitchs e outras palestras sobre empreendedorismo e inovação social gratuitamente via streaming.

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